Evolução constante

“Nosso trabalho como companhia é fazer com que as pessoas se apaixonem por nós o tempo inteiro”, diz Tiago Lara, da Leo Burnett Tailor Made

Amanda Schnaider

Tiago Lara é formado em Publicidade e Propaganda e pós-graduando em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global, além de ter especializações em neurociência, UX Strategy, People Management e Digital Leadership e Linguística. Com mais de 17 anos de experiência no mercado publicitário, passou 13 deles em uma mesma empresa, a Leo Burnett Tailor Made, onde atualmente atua como vice-presidente executivo de estratégia e gestão de dados. Em 2013, Lara foi um dos se lecionados na segunda edição do projeto 30 Under 30, de Meio & Mensagem, e, em 2019, recebeu o Caboré de Profissional de Planejamento. Como parte do board executivo da Leo Burnett, o executivo tem trabalhado com empresas de tecnologia, startups e bureaus de data para integrar operações, contratar novos perfis, desenvolver ferramentas, metodologias e manter agência e clientes em constante evolução.

Tiago Lara, vice-presidente executivo de estratégia e gestão de dados da Leo Burnett Tailor Made (Arthur Nobre)

Meio & Mensagem — Em um mundo cada vez mais dinâmico e volátil, como é a experiência de trabalhar 13 anos em uma mesma empresa?
Tiago Lara — A grande vantagem de se trabalhar numa mesma empresa num mundo que muda tanto é poder acompanhar e participar da mudança da empresa dentro desse período. Esse é o principal atributo. A vantagem de ter essa consistência de local te permite poder perceber como é que uma empresa precisa se transformar a cada ciclo para se manter no topo. Se você estivesse numa empresa por um curto período, talvez não visse essas mudanças todas. Os meus 13 anos na Leo foram empresas muito diferentes. Lideranças diferentes, modelos de trabalho diferentes. Não só porque pessoas chegaram e saíram, mas porque o mercado mudou, o mundo mudou, a comunicação precisava mudar e acompanhar. Essa é a vantagem que vejo de estar há tanto tempo em um só lugar.

M&M — Qual foi o impacto desse período no seu desenvolvimento profissional?
Tiago — Nunca teria olhado tão para o lado quanto sou obrigado a fazer agora. Ficar muito tempo em uma empresa e dentro de um contexto em que tudo muda o tempo todo, me obriga a buscar novas qualificações profissionais, a olhar novas formas de me desenvolver mais pessoalmente, profissionalmente, como ser humano e líder. Fui obrigado ao longo desses anos a buscar referências fora da propaganda, fora do universo empresarial, para que conseguisse não apenas enxergar novas formas de ajudar a empresa a crescer, mas novas formas de como deveria me comportar. São 13 anos em que me questiono como pessoa. O que preciso fazer para estar mais pronto? O que repensar no meu modo de agir para me adequar mais a esse contexto? Tem sido uma jornada muito transformadora como pessoa, diria que até mais do que como publicitário.

M&M — Quais são as características que busca num profissional quando está montando um time?
Tiago — Preciso de alguém que se prontifique a não ter respostas e alguém que esteja disposto a fazer as perguntas mais incômodas. Essa é a única característica que não consigo abrir mão num profissional. Estou menos preocupado com a experiência que você tem dentro da propaganda ou dentro do mundo empresarial, e estou mais preocupado com o quão incomodado com o mundo você está. Quanto mais incomodado, mais coragem de fazer as perguntas corretas você tem. Essa é a base do nosso trabalho, é transformar o comportamento das pessoas e parte primeiro de entendê-lo. Preciso que o profissional faça perguntas corajosas, destemidas e sinceras. Esse é o atributo principal de um planejador hoje. Contratamos nos últimos tempos muitas pessoas que não tinham vindo de propaganda ou pessoas que não tinham nem base, necessariamente, estratégica. Porém, são pessoas que quando você começa a conversar não são apenas curiosas, mas incomodadas. São incomodadas com a sociedade como está, com o mercado e com a indústria. Quanto mais pessoas incomodadas tivermos, mais conseguimos transformar o departamento, a agência, o mercado e a sociedade. Esse é o ciclo virtuoso que busco trazer para dentro. Se você for incomodado, não tem mais como ser acomodado. Quando se passa 13 anos em uma mesma empresa ou 20, 40, ou você está acomodado, só está sobrevivendo, indo com a maré, ou está incomodado, crescendo, transformando e organizando.

M&M — O que uma empresa deve oferecer, atualmente, para atrair e reter jovens talentos?
Tiago — Ouvir. Às vezes, as empresas pecam em não ouvir. As pessoas têm muito o que falar sempre, têm muita opinião. Se contrato uma pessoa incomodada, proativa, com experiência diversa, ela tem muito a dizer, inclusive, sobre o meu modelo de negócio, minha forma de trabalho, meu modelo de remuneração e a forma como me relaciono com os clientes. A partir do momento em que consigo ouvir, estabelecer um diálogo, é um primeiro caminho para podermos encontrar esse meio termo. O meio termo é o que garante que consigamos encontrar um formato que seja bom para você e para mim. Muitas vezes, as empresas impõem posturas e dinâmicas que acham altamente inclusivas, democráticas. Inclusivas e democráticas para quem? Se já temos pessoas que montam esses projetos, que fazem essas questões, por que não ouvi-las, trazê-las para esse tipo de manifestação e conseguir fazer com que elas façam parte de uma forma real, concreta e honesta deste processo? Essa é uma dinâmica que, inclusive, nos faria repensar cargos, remuneração pessoal, jornada de trabalho, volume de entregas e demandas.

M&M — Do ponto de vista de desenvolvimento profissional, quais são os prós e os contras quando comparamos ciclos de permanências longos e curtos numa empresa?
Tiago — Já tive durante a minha carreira muitas permanências curtas, o que acredito até seja um padrão dentro do mercado. Antes de chegar na Leo, tive ciclos de dois anos, dois anos e meio em algumas agências. Tudo tem o seu lado bom e ruim. Os ciclos curtos nos ajudam a respirar novos modelos de trabalho, formatos, só que por outro lado, demoro para ver as minhas atitudes transformarem. Se trabalhar um pouco em cada empresa, vou aprender modelos e formas de pensar diferentes, porém, tudo que implementar em uma empresa talvez não veja florescer. Quando olho para dentro de Leo, consigo ver florescer várias ações que estou batalhando para acontecer, vários modelos de trabalho, organização que estou construindo, porém, preciso buscar mais referências fora, porque, afinal, estou preso ali dentro do meu universo e preciso entender que a Leo não é o único formato que existe. Essa é a grande diferença. Estar muito tempo em um lugar te “permite” se acomodar e aí começa um declínio. A partir do momento em que você continua olhando para o lado, para fora, continua buscando formatos de melhorar o seu ambiente, isso me coloca dentro desses pontos positivos e negativos. O que me faz, hoje, ficar ou o que me fez durante todo esse tempo, é justamente conseguir ver as minhas coisas transformarem a agência e não só o trabalho do cliente, mas a dinâmica de trabalho que temos, o formato de organização e as várias reinvenções de modelo de negócio.

M&M — Ficar menos tempo em uma só empresa é o futuro do mercado de trabalho?
Tiago — Não gosto muito de cravar o futuro. É muito injusta qualquer que seja a minha resposta, mas acredito o que temos que entender é: se as pessoas não ficam muito tempo comigo, o que estou fazendo de errado? Essa é a pergunta que deveríamos fazer antes de perguntar se é uma tendência ou não. As pessoas estão passando pouco tempo comigo porque elas se sentem mal remuneradas, mal representadas, não ouvidas. Talvez se conseguir entender o que faz as pessoas saírem, consiga fazer com que elas fiquem. Ninguém sai por nada. Se as pessoas trocam de emprego de um ano e meio em um ano e meio é porque alguma coisa está acontecendo. Elas não veem um plano de carreira? Não veem suas vozes serem ouvidas? E aí elas buscarão satisfação em outros lugares. O nosso trabalho como companhia é fazer com que as pessoas se apaixonem por nós o tempo inteiro.

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